
Dados do Censo 2022 apontam 1,2% da população brasileira diagnosticada com autismo, mas especialistas alertam para mudanças nos critérios e possíveis diagnósticos equivocados.
Há uma epidemia de autismo no Brasil? Segundo o Censo Demográfico 2022, uma em cada 85 pessoas no país é diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), correspondendo a 1,2% da população. Foi a primeira vez que o autismo entrou oficialmente no Censo, após a Lei nº 13.861/2019, que determinou sua inclusão.
Antes disso, a Academia Médica, em 2021, estimava dois milhões de pessoas com TEA no Brasil – um aumento de 20% em relação a anos anteriores. Se compararmos com as projeções da Associação Brasileira de Autismo (Abra), de 1997, o salto é ainda maior: de 600 mil para 2,4 milhões de pessoas, o que representa crescimento de 300%.
Esse avanço, no entanto, não pode ser entendido apenas como “explosão de casos”. De 1997 a 2022, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) passou por três revisões. Em 2013, por exemplo, a Síndrome de Asperger e os Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) foram incorporados ao diagnóstico de TEA, ampliando a definição.
O fenômeno também é observado em outros países. Nos Estados Unidos, houve aumento de 382% nos registros de autismo infantil, passando de 1 em cada 150 crianças para 1 em cada 31. Especialistas explicam que essa alta reflete maior acesso a serviços, mudanças nos critérios clínicos e maior conscientização social – e não apenas causas biológicas.
Diagnósticos em debate
Para a professora Maria Aparecida Affonso Moysés, da Unicamp, militante do movimento Despatologiza, vivemos uma “epidemia de diagnósticos, não de transtornos”. Em entrevista à UFMG, ela afirmou que cada vez mais pessoas são enquadradas como autistas, o que gera impactos sociais, políticos e econômicos.
No Brasil, a Lei nº 13.146/2015 garante que pessoas diagnosticadas com TEA, em qualquer nível de suporte, sejam reconhecidas como pessoas com deficiência. Isso garante acesso a assistência médica, benefícios sociais e políticas de inclusão. Contudo, o psiquiatra Joel Rennó Jr. alerta que diagnósticos equivocados podem prejudicar o acesso de autistas que realmente precisam de tratamento e suporte.
Reflexão necessária
Os números, portanto, não devem ser lidos de forma isolada. Eles refletem tanto avanços científicos e legais quanto mudanças sociais na percepção do que é considerado “normal”. Mais do que discutir se vivemos ou não uma epidemia, o desafio é equilibrar precisão diagnóstica, acesso justo a direitos e políticas públicas efetivas, sem perder de vista a singularidade de cada indivíduo.
Texto de Maria Lohmann, graduanda em Ciências Sociais da UNIFAL-MG. Com foco nos transtornos mentais e na medicalização da vida, seus estudos buscam compreender como a sociedade molda a percepção do “normal”, afetando os indivíduos e a própria sociedade. Fora do meio acadêmico, cultiva sua paixão pela música e pela produção, onde encontra novas formas de expressão e criatividade.
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